Em 1940, CLR James, um dos pioneiros do Marxismo Caribenho, teve no jornal proletário Labor Action publicado seu curto texto sobre Marcus Garvey, um dos expoentes do Nacionalismo Negro.

Artigos e editoriais sobre Garvey nasceram testemunhas da grande impressão que esse homem extraordinário causou na vida americana em menos de dez anos de estadia no país. O movimento revolucionário é obtuso a importância de sua carreira. Portanto mostra que ainda está dominada por preconceito que faz pouco e ignora de toda ação e conquista dos negros. Garvey chegou a América algum tempo durante a guerra e militou por sua organização, a UNIA, Universal Negro Improvement Association. Ele possuía um fantástico programa de volta à África, fantástico, por que a Bretanha, a França e a Alemanha não lutariam guerras pela África e a entregariam para Garvey. É duvidoso se ele próprio acreditava nisso. É possível que, quando ele começou a levar essa ideia a sério, é possível que ele tenha começado a entender as impraticabilidades. Entretanto, as ideias de Garvey não importam.

A primeira coisa a se notar é que ele se tornou proeminente no período do pós-Guerra, quando a revolução estourou na Europa e os trabalhadores se moviam por todo lugar. As massas de negros sentiram as ondas do período, e isso que fez Garvey. O próximo grande movimento da classe trabalhadora estadunidense foi  o movimento pró-Roosevelt em 1936. Atraiu centenas de milhares de votos negros do partido Republicano para o Democrata. O terceiro grande movimento de trabalhadores estadunidenses foi a CIO, que atraiu centenas de milhares de negros aos sindicatos pela primeira vez. Mesmo assim a maior resposta foi para Garvey.

Porque? Garvey era um reacionário. Ele usou palavras fortes pas se opunha ao movimento dos trabalhadores e aconselhava subserviência aos chefes. Uma das razões para seu sucesso era seu movimento ser estritamente um movimento de classes. Ele apelava aos de pele escura contra os mulatos. Em um golpe ele excluiu a classe média negra, majoritariamente miscigenada. Ele deliberadamente mirava os negros mais pobres e humilhados. Os milhões que o seguiram, contribuíram com dinheiro e devoção, mostram onde podemos encontrar a mais profunda força do movimento dos trabalhadores, as contrações de força que descansam esperando para que o partido possa libertá-las. Garvey, entretanto, foi um fanático racial. Seu apelo era negros contra brancos. Ele queria pureza de raça. Grande parte de sua propaganda era baseada em conquistas passadas de negros, sua miséria atual e grandeza futura.

Com esse desprezo aos fatos que caracterizam o demagogo, ele proclamava que existiam apenas 400 milhões de negros no mundo, quando certamente não existam nem a metade. A quem este nos lembra, senão Adolf Hitler? A similaridade entre os dois movimentos não acaba aí. Os negros eram muito poucos nos Estados Unidos para Garvey excitá-los atacando diretamente os brancos como Hitler atacava os Judeus. Mas esse programa possuía a nebulosidade do programa Nazista. Por essa razão que muito antes de Hitler, ele antecipou o líder Nazista com seu fanatismo por paradas, guardas militares, para resumir, o dramático e o espetacular? Pessoas estúpidas viram nisso apenas maneirismos de negros atrasados. Eventos recentes deveriam dar a eles uma oportunidade de revisar seus julgamentos. Tudo feito por Hitler fez posteriormente para aflorar o apelo psicológico, foi feito por Garvey em 1921 com sua corte de barões, sua auto proclamação como Imperador da África, ressaca de sua vida nas Índias Ocidentais.

De maneira importante, o movimento de Garvey foi o movimento de massa mais importante que a América já viu. Note que Garvey não prometeu nada e ao mesmo tempo tudo aos negros. Sua organização não foi um sindicato que oferecia salários mais altos, nem era um partido político que oferecia os prospectos de realizar um programa. Tudo que ele fez foi falar de África, e bem no final de sua carreira ele comprou um ou dois barcos furados que fizeram duas viagens vacilantes. Ainda sim o senso de humilhação entre os negros era tão alto que ele os elevou e os fez darem o que deram, ano após ano, esperando que Garvey realizasse algum milagre. Nenhuma revolução é feita sem que as massas atinjam esse máximo de exaltação, quando eles observam a possibilidade de uma nova sociedade. Isso que Garvey deu a eles.  

Pessoalmente, Garvey foi um dos grandes oradores de seu tempo. Pouco educado, mas com os ritmos de Shakespeare e a Bíblia memorizada, ele era um mestre da retórica e bastante inventivo, capaz de gerar apelo emocional e intensidade dramática. Em seus anos tardios ele podia atrair públicos imensos de ingleses em Hyde Park, onde ele diria que Deus salvaria a Etiópia pois Simão de Cirene, um negro, ajudou Jesus no caminho da crucificação. Como o grande poeta diz, não é o que você diz, é como você diz. Ainda assim esse movimento considerável permanece não estudado por Marxistas americanos. 

Qualquer revolucionário de dois centavos que falou com negros em cafeterias e portanto sabe da questão negra, aponta os erros de Garvey e os absurdos e pensa que fez uma contribuição. Mas do que tudo as teses da Comintern, a base para se construir um movimento de massas entre os negros está no estudo da primeira grande erupção do povo negro.

Publicado originalmente em: Labor Action, Vol. 4 No. 11, 24 Junho 1940, p. 3.
Traduzido por Vitur Teiú em 28/08/2020.