Traduzido por Vitor Teiú em Abril de 2020.

“A classe trabalhadora não deve se constituir em um partido político; não deve, sob nenhum pretexto, engajar em ação política, combater o estado é reconhecer o estado: e esse é o contrário dos princípios eternos. Trabalhadores não devem entrar em greve; pois a luta para aumento de salários ou prevenir sua queda é como reconhecer salários: e esses são contra os princípios eternos para a emancipação da classe trabalhadora!

Se na luta política contra o estado burguês os trabalhadores conseguirem extrair concessões, então eles são culpados de firmarem compromissos; que é o contrário dos princípios eternos. Todos movimentos pacíficos, como os dos trabalhadores Ingleses e Americanos, tiveram o mal hábito de engajar, por isso devem ser desprezados. Trabalhadores não devem lutar para estabelecer um limite legal do dia, pois isso se trata de um compromisso com os mestres, que podem explorá-los por dez ou doze horas, ao invés de catorze ou dezesseis. Eles não devem nem ao menos esforçar-se em legalmente proibir a contratação de crianças menores de dez anos, já que isso significa que eles não acabam com a exploração das crianças acima de dez: eles então fazem um novo compromisso, que mancha a pureza dos princípios eternos.

Trabalhadores deviam menos ainda desejar, como acontece nos Estados Unidos da América, o estado em que o orçamento é engordado pelo que é tomado da classe trabalhadora, já que a educação primária não é educação completa. É melhor que homens e mulheres trabalhadoras não sejam capazes de ler, escrever ou somar ao invés de receberem uma educação de um trabalhador em uma escola do estado. É bem melhor que a ignorância do dia de trabalho de dezesseis horas emburrecem a classe trabalhadora, dessa forma os princípios eternos não podem ser violados.

Se a luta política da classe trabalhadora assume formas violentas e os trabalhadores substituírem a ditadura da classe burguesa por sua própria ditadura revolucionária, então eles são culpados de um terrível crime de lèse-principe 1; pois, para satisfazer suas necessidades diárias profanas e esmagar a resistência da classe burguesa, eles, ao invés de abaixar suas armas e abolirem o estado, dar o estado uma forma revolucionária e transitória. Trabalhadores não devem nem formar sindicatos para suas profissões, fazendo isso eles perpetuam a divisão social do trabalho da sociedade burguesa; essa divisão, que fragmenta a classe trabalhadora, é a verdadeira base da escravidão presente.  

Em uma palavra, os trabalhadores deveriam cruzar os braços e pararem de perder tempo em movimentos políticos e econômicos. Esse movimentos não podem produzir nada senão resultados a curto prazo. Como verdadeiros homens religiosos eles devem desprezar as necessidades diárias e gritar em vozes de fé: “Que nossa classe seja crucificada, que nossa raça pereça, mas que os princípios eternos continuem imaculados!” Como penitentes cristãos eles devem acreditar nas palavras de seu pastor, menosprezar as coisas boas nesse mundo e pensar apenas em irem ao Paraíso. No local de Paraíso ler sobre a liquidação social que irá acontecer algum dia em algum canto do globo, ninguém sabe como, ou através de que.

Na espera, portanto, dessa famosa liquidação social, a classe, a classe trabalhadora deve se comportar de maneira respeitável, como um rebanho de ovelhas bem alimentadas; deve deixar o governo em paz, temer a polícia, respeitar a lei a oferecer-se sem reclamar como bucha de canhão. 

Na vida prática do dia-a-dia, trabalhadores devem ser servos obedientes do estado; mas seus em seus corações devem protestar energicamente contra sua existência, e dar prova de seu profundo desprezo teórico ao estado, adquirido através da leitura de tratados literários sobre sua abolição; eles devem escrupulosamente abster-se de realizar qualquer resistência ao regime capitalista fora de declamações de uma sociedade futura e hipotética, de quando o regime tiver deixado de existir!”

Não se pode negar que se os apóstolos do indiferentismo político se expressassem com tanta clareza, a classe trabalhadora faria pouco destes e se ressentir de ser insultada por esses senhores doutrinários burgueses e deslocados, que são tão estúpidos ou ingênuos me suas tentativas de negar a classe trabalhadora do seu real significado de sua luta. Todas todas as armas que nós lutamos devem ser tiradas da sociedade como ela é e as condições fatais dessa luta têm o infortúnio de não serem facilmente adaptadas às fantasias idealistas que esses médicos das ciências sociais exaltaram como divindades, sobre os nomes de Liberdade, Autonomia, Anarquia. Porém o movimento dos trabalhadores hoje é tão poderoso que esses sectários filantropos não ousam repetir pela luta econômica dessas grandes verdades que eles usam incessantemente para proclamar o tema da luta política. Eles são simplesmente muito covardes para aplicá-las em qualquer greve longa, organizar-se, sindicatos de uma profissão, leis do trabalho de mulheres e crianças, na limitação dos dias de trabalho etc., etc. 

Agora vejamos se eles seriam capazes de trazer as velhas tradições, a modéstia, a boa fé e os princípios eternos.

Os primeiros socialistas (Fourier, Owen, Saint-Simon, etc.), que viviam em condições sociais não desenvolvidas o suficiente para permitir a classe trabalhadora a se constituir como classe militante, eram obrigados a limitarem-se com sonhos de uma sociedade modelo do futuro e portanto foram levados a condenarem greves, sindicatos ou movimentos políticos feitos para treinar os trabalhadores em melhorarem a si mesmos e suas condições. Mas enquanto não podemos repudiar esses patriarcas do Socialismo, assim como químicos não podem repudiar os alquimistas, nós devemos pelo menos evitar cair em seus mesmos erros, se o fizéssemos, isso seria imperdoável.

Mais tarde, em 1839, quando a luta política e econômica da classe trabalhadora na Inglaterra assumiu um caráter bem definido, Bray, um dos discípulos de Owen e um dos muitos que estabeleceram a ideia de mutualismo muito antes de Proudhon, publicou um livro intitulado Os Erros do Trabalho e as Soluções do Trabalho. 

Em seu capítulo sobre a ineficiência de todos os mecanismos da luta presente, ele faz vorazes críticas a todas as atividades, políticas ou econômicas, da classe trabalhadora Inglesa, condena o movimento político, greves, a limitação do dia de trabalho, a restrição do trabalho às mulheres e crianças nas fábricas, já que tudo isso – segundo ele mesmo – ao invés de levar-nos para fora do estado presente da sociedade, nos mantém presos e não faz nada se não intensificar os antagonismos.

Isso nos traz ao oráculo desses doutores da ciência social, o sr. Proudhon. Enquanto o mestre teve a coragem de declarar-se energeticamente contra todas atividades econômicas (sindicatos, greves, etc.) que contradiziam com suas teorias do mutualismo, ao mesmo tempo por sua escrita e participação pessoal, ele encoraja o movimento dos trabalhadores e seus discípulos a não se declararem abertamente contra elas. Em 1847, quando a grande obra do mestre, O Sistema de Contradições Econômicas, havia sequer sido lançada, eu refutei seus sofismos contra o movimento da classe trabalhadora.2 Mesmo assim em 1864, após a loi Ollivier, que garantiu aos trabalhadores franceses, com restritividade já de praxe, o direito de sindicalização, Proudhon voltou ao ataque em um livro, De la Capacité politique des class ouvrières, publicado alguns dias depois de sua morte. 

Os escritos do mestre eram tão ao gosto da burguesia que o The Times, na ocasião da grande greve dos alfaiates de Londres em 1866, deu à Proudhon as honras de traduzi-lo condenando as greves usando as palavras do próprio mestre. Aqui estão algumas delas.

Os mineiros de Rive-de-Gier entraram em greve; os soldados foram chamados para trazê-los de volta a razão. Proudhon apela, “a autoridade que fez com que os mineiros de Rive-de-Gier fossem fuzilados agiu de forma desonrosa. Mas agiu da mesma maneira que Brutus quando este se viu entre o amor paternal e seu dever consular: foi necessário sacrificar seus filhos para salvar-se a República. Brutus não exitou, e a posteridade não ousou condená-lo.”3 Em toda memória do proletariado não há registro da burguesia hesitando em sacrificar seus trabalhadores para salvar seus interesses. Que Brutus a burguesia deve ter sido!

“Bem, não: não existe direito de sindicalizar-se, assim como não existe direito de roubar ou cometer incesto4 e adultério.” Existe porém, o direito à estupidez.

O que então são os princípios eternos, os quais o Mestre fulmina sua mística anátema?

Primeiro princípio eterno: “médias salariais determinam o preço de mercadorias”.

    Até para aqueles com nenhum conhecimento de economia política e que não possuem ciência de que o grande economista burguês Ricardo em seu Princípios de Economia Política, publicado em 1817, refutou esse erro clássico de uma vez por todas, sabem do impressionante fato de que a indústria britânica pode vender seus produtos por um preço mais baixo que qualquer outra nação, embora os salários na Inglaterra sejam mais altos que qualquer outro país europeu.

    Segundo princípio eterno: “A lei que autoriza associação é altamente antijurídica, antieconômica e contrária à sociedade e a ordem”. 5 Ou simplesmente “contrário ao direito de livre competição”.

    Se o mestre tivesse sido um pouco menos chauvinista, ele teria perguntado a si mesmo como uma lei contrária aos direitos econômicos de livre competição, foi promulgada há quarenta anos atrás na Inglaterra; e enquanto essa indústria se desenvolve, também se desenvolve a livre competição, essa lei – ao contrário de qualquer sociedade e ordem – se impõe como uma necessidade até para os estados burgueses. Ele deve ter descoberto que esse direito (com D maiúsculo) existe apenas em Manuais Econômicos escritos por farsantes da economia política burguesa, tais manuais contêm a seguinte pérola: “Propriedade é o fruto do trabalho” (“do trabalho” apenas, eles esqueceram de adicionar “dos outros”)

Terceiro princípio eterno: “Portanto, sob o pretexto de elevar a classe trabalhadora de sua dita condição de inferioridade social, seria necessário começar a denunciar uma classe inteira de cidadãos, a classe dos chefes, empreendedores, mestres e burgueses; seria necessário fazer com que os trabalhadores odiassem e desdenhassem esses essa classe média, seria necessário preferir guerra industrial e mercantil contra repressão legal, e antagonismo de classe contra a polícia do estado. 6

O mestre, para prevenir a classe trabalhadora de escapar da dita inferioridade social, condena as associações que constituem na classe trabalhadora como uma classe antagônica à classe respeitável dos mestres, empreendedores e burgueses, que de seu lado preferem, tal qual Proudhon, ao antagonismo de classe com a polícia do estado. Para evitar quaisquer ofensas à essa classe respeitável, o bom Sr. Proudhon recomenda aos trabalhadores (até a chegada do regime mutualista, e ignorando suas séries desvantagens) liberdade de competição como “nossa única garantia”.

O mestre pregava indiferença nos assuntos de economia – para proteger a liberdade burguesa de competição, nossa única garantia. Seus discípulos pregavam indiferença nos assuntos de política – para proteger a liberdade burguesa, sua única garantia. Se os primeiros cristãos, que também pregavam indiferentismo político, precisaram do alívio de um imperador para transmutar-se de oprimidos a opressores, os apóstolos atuais do indiferentismo político não acreditam que seus próprios princípios eternos impõe a eles abstinência dos prazeres mundanos e privilégios temporais da sociedade burguesa. Entretanto devemos reconhecer que eles exibem um estoicismo digno de um mártir Cristão antigo ao apoiar as catorze a dezesseis horas de trabalho que esmagam os operários nas fábricas.

Karl Marx, Almanacco Repubblicano per l’anno, 1874.

Post original: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1873/01/indifferentism.htm

  1. Falta de princípios
  2. Karl Marx, Miséria da Filosofia (trad. José Paulo Netto, São Paulo, Boitempo, 2017).
  3. De la Capacité politique des class ouvrières, Paris, 1865, p. 413. Para ser justo com Proudhon, ele não justificava as ações das autoridades francesas e sim expondo as “contradições” que ele via como maus necessários para a ordem social presente.
  4. ibid., p. 421
  5. ibid., p. 424.
  6. ibid., p. 426