Uma vez passada a “revolta negra” na Califórnia, o conformismo internacional “enterrou” o evento atrás de um pesado manto de silêncio; a “iluminada” burguesia ainda ansiosamente procura descobrir as “misteriosas” causas que bloquearam o mecanismo “pacífico” democrático, qualquer observador em qualquer lado do Atlântico irão se lembrar que, explosões de violência coletiva por parte de “pessoas de cor” não são novas nos Estados Unidos, por exemplo, a séria explosão de Detroit em 1943, sem nenhuma consequência séria.

Mas algo profundamente novo aconteceu nesse episódio de raiva, não popular, mas proletária por natureza, algo a ser seguido não com objetividade fria mas com paixão e esperança. E nos faz dizer: a revolta negra foi esmagada; vida longa à revolta negra!

A novidade – para a história da luta de emancipação do proletariado e subproletariado negro, e não para a história da luta de classes em geral – é a mais perfeita coincidência entre a retórica pomposa de promulgação presidencial de direitos políticos e civis, e a erupção de uma fúria anonima, subversiva, coletiva e incivil por parte dos supostos beneficiários desse gesto “magnânimo”; a décima terceira tentativa de enganar o escravo torturado com uma cenoura apodrecida de valor nenhum, e a recusa instintiva e imediata do escravo de permanecer vendado, de joelhos e tremendo.  

Duramente, e instruídos por ninguém – não por seus líderes, mais Gandhianos que o próprio Gandhi; não por um “comunismo” nos modos da URSS, que o L’Unità1 rapidamente já apontou rejeitar e condenar a violência – mas educados pelas duras lições e fatos da vida social, os negros da Califórnia gritaram ao mundo, sem ter uma consciência teórica, sem precisarem se expressar em uma língua rocambolesca, mas através da ação, a simples e terrível verdade de que igualdade política e legal não são nada sem igualdade econômica; e esta só é possível não por leis, decretos, sermões ou lições, mas apenas através da derrubada das fundações da sociedade dividida em classes. É a súbita destruição das ficções legais e hipocrisia democrática, que perplexa e confunde apenas a burguesia; isto que foi o foco do entusiasmo de Marxistas reais; e isto que deve capturar a imaginação do proletariado dormente em casulos artificiais dos privilégios de um capitalismo que nasceu para a pele branca.

Quando o norte Estadunidense, já no caminho para o capitalismo, lançou uma cruzada para a abolição da escravidão no Sul, não o fez por razões humanitárias, ou por respeito pelos princípios eternos de 1789, mas porque foi necessário fazer-se prevalecer uma economia capitalista patriarcal e “libertar” a força de trabalho para que esta se torna-se um grande recurso para o monstro capitalista. Portanto, antes da Guerra Civil, o Norte encorajou a fuga de escravos das plantações no Sul, foi transformada em uma força de trabalho que estaria à venda por centavos no mercado de trabalho e adicionalmente beneficiária reduzindo o salário da força de trabalho já empregada, ou pelo menos impediu o seu aumento. Durante e depois da guerra o processo foi rapidamente acelerado, e se tornou generalizado. Foi uma transição historicamente necessária para superar os limites de uma economia extremamente atrasada, e o Marxismo saudou isso, mas não por não saber que “libertada” no sul, a força de trabalho negra encontraria no Norte um mecanismo de exploração já estabelecido, e mais feroz em alguns aspectos. Nas palavras do Capital, o “bom negro” estaria livre de entregar sua pele no mercado de trabalho para ser marcada: livre das correntes da escravidão no Sul, mas também um escudo protetor de uma economia e sociedade baseada em relações humanas, ao invés de relações impessoais e inumanas; livre, para não dizer nua e desarmada.

Na verdade, o escravo que escapou para o norte perceberia que ali estava também em uma posição inferior; ele recebia menos, estava privado de qualificações profissionais, estava isolado em guetos e era um soldado do exército industrial de reserva e uma ameaça potencial à desintegração do tecido da propriedade privada; era discriminado e sujeito a segregação não como um ser humano mas uma besta com um fardo, e assim teria que vender a si mesmo ao primeiro comprador sem tempo para escolher opções melhores. 

Hoje, um século após sua dita “emancipação”, ele recebe a “plenitude” de direitos civis pela mesma legislação que garante sua renda média ser dramaticamente mais baixa que de outros cidadãos de pele branca: seus salários são a metade do irmão de pele branca, o pagamento de sua companheira é o terço do pagamento da companheira do segundo, no mesmo ato em lei que as metrópoles douradas das corporações o confinam em guetos de miséria, doença, insegurança, isolando-o atrás de barreiras invisíveis de preconceito e regulações policiais; no mesmo ato em que o desemprego chamado pela hipocrisia burguesa de “tecnológico” (isso para não dizer o “inevitável” preço do caminho do progresso, não mazelas da sociedade presente), faz suas maiores vítimas seus irmãos de raça, pois eles fazem parte das fileiras de trabalhadores ordinários e subproletários consignados aos mais baixos empregos; na mesma lei onde ele é considerado igual no campo de batalha aos seus irmãos brancos a serem feitos de bucha de canhão, não recebe o mesmo tratamento do policial, do juiz, do cobrador de imposto, o dono da fábrica, do gerente do sindicato, do proprietário do barraco em que vive.

Também é inegável – e incompreensível para o pedante – que essa revolta eclodiu na Califórnia onde o salário médio de trabalhadores Negros é maior que no Leste, mas é precisamente nessa região que o boom capitalista e do dito “bem-estar” em que a disparidade de renda é a maior, é aqui que o gueto, já há muito anexado ao longo da costa Atlântica, se torna rapidamente anexado às de demonstrações de luxo, desperdício, e boa vida das classes dominantes – que são brancas!      

É contra essa hipocrisia do igualitarismo jesuiticamente venerado pela lei, mas negado na realidade de uma sociedade tão profundamente entrincheirada em classes, que a raiva negra explodiu; da mesma maneira que a raiva explode entre proletários brancos, abusados e explorados nos novos centros do capitalismo avançado, amontoados nas favelas monótonas e nos barracos da sociedade burguesa cristã onde eles são “livres” para venderem sua força de trabalho para que não passem fome; da mesma maneira de sempre a fúria sagrada das classes dominadas explode, e se não fosse o suficiente, ela é vilanizada.  

“Revolta premeditada contra o estado de direito, os direitos de nossos vizinhos e a manutenção da ordem!” exclamou Mc Intyre, o Cardeal de nossa Sacrossanta Igreja, como se o novo escravo sem correntes tivesse um motivo para respeitar a lei que mantêm sua face pressionada contra o asfalto e de joelhos, que esse “irmão” dos brancos, nunca possuiu “direitos” ou chegou a ver a sociedade da tripla mentira de liberdade, igualdade e fraternidade, algo além da desordem se ergueu ao nível de um princípio. 

“Direitos não são conquistados pela violência” exclamou Johnson. Mentira. Os negros se lembram, sabem da guerra que Brancos tiveram que travar no passado para conquistar os direitos alienados pela metrópole Inglesa; eles sabem que Negros e Brancos, temporariamente unidos, tiveram que conduzir uma guerra mais longa ainda para manter a falsa aparência de “emancipação” ainda impalpável e remota; eles veem e sentem a cada dia a retórica chauvinista exaltando o extermínio indígena, a marcha dos “pais fundadores” em direção a novas terras e a violência brutal dos pioneiros ocidentais, “exaltados” ao status de civilização pela Bíblia e pelo álcool, o que seria tudo isso se não violência?

Incipientemente, negros entenderam que nenhum problema na história americana, tal qual em todos os outros países, que não foi resolvido pela força, não existem direitos que não são o resultado de lutas, algumas vezes sangrentas, sempre violentas, entre as forças do passado e do futuro.

Uma centena de anos de espera pelas concessões magnânimas dos brancos trouxeram poucos resultados. E como o governador Brown, defensor dos direitos dos brancos ameaçados pela “revolta” respondeu? Pela violência democrática das metralhadoras, cassetetes, blindados e estado de cerco?

Então do que se trata isso se não a experiência de classes oprimidas sob o mesmo céu, independente da cor da pele e sua origem racial? Os negros, não importando se proletários puros ou subproletários, que gritaram em Los Angeles: “nossa guerra é aqui, não no Vietnã”, não expressou uma ideia diferente daqueles que “lançaram um ataque contra o paraíso” durante a Comuna de Paris e dos coveiros do mito da ordem e do interesse nacional, do interesse nacional, das guerras civilizatórias e da civilização em Petrogrado.

Nossa burguesia não pode se consolar pensando: esses são episódios distantes que não nos preocupam, em nossos lares não existe questão racial. Raça é agora, de maneira mais evidente, um problema social.

O fato que o desemprego em nosso Sul (da Itália) não pode mais ser resolvido na válvula de segurança da imigração, o fato que ele não pode mais viajar além das fronteiras sagradas da pátria mãe sem ser esfolado vivo (e ser massacrado em desastres, não por conta do destino, vigarismos inesperados ou a atmosfera, mas pela sede de lucro do Capital, essa busca frenética para economizar os custos em materiais, transporte, dispositivos de segurança, e talvez ganhos futuros na reconstrução de desastres que são inevitáveis e imprevisíveis); o fato de que as favelas de nossos centros industriais e capitais morais (!!) estão abarrotadas, principalmente hoje, de párias sem trabalho, pão e dinheiro, e ainda terão que lidar com o racismo italiano, já visível hoje nas recriminações dos habitantes do Norte Italiano contra os “primitivos” e “sem cultura” do Sul.

Essa estrutura social é a que nos chama para viver hoje e dá a luz a tais infâmias, apenas com sua total ruína que eles desaparecerão.

Isso alerta e lembra aqueles que, drogados pelo ópio democrático reformista, e sem memória, vacilam em um sonho ilusório de bem estar, a “revolta negra” na Califórnia – não distante e muito menos exótica, mas presente em nosso meio; imatura e derrotada, é prenúncio da vitória! 

Amadeo Bordiga, Il Programma Comunista n° 12, publicado originalmente em 10 de Setembro, 1965.

Traduzido por Vitor Teiú em Julho de 2020.

  1. L’Unità era o jornal oficial do Partido Comunista Italiano.