A crise do SARS-CoV-2 expôs uma ferida que há muito vinha se abrindo na estrutura em si do governo Bolsonaro e sua relação com a burguesia, a desconfiança que a classe tinha neste. E aqui estamos, nos primeiros três meses do segundo ano de governo Bolsonaro. Um cenário verdadeiramente de crise se deflagra, começa no campo econômico, atinge a política e penetra a alma e a moral em si do país, apodrece os membros e revela a necrose interna dos órgãos “democráticos” do estado.

É evidente de que o momento político da burguesia não é um fato que surgiu do dia pra noite no ano de 2020, teve início já no ano de 2019, quando os bancos declaram que o ano já estava perdido, a cisão do PSL, a cisão com o PSDB (embora este tenha continuado a votar nas medidas governistas, pelos interesses da classe que o partido representa), e principalmente o já mencionado fracasso econômico. A burguesia—ou pelo menos uma porção expressiva desta—se organiza agora sobre a liderança de outro forte representante da classe, o Governador de São Paulo João Dória Júnior.

Não está claro, e também se estivesse para mim eu provavelmente não estaria escrevendo em uma revista comunista, como será a sucessão dos eventos políticos nos joguetes e politicagens da burguesia, mas uma coisa é clara; o Presidente Jair Messias Bolsonaro, a cada dia que a crise do COVID-19 passa, perde sua base e se enfraquece, seu conteúdo se murcha rapidamente tal qual o seu capital político que foi construído anos a fio pelo esforço da mídia televisiva sensacionalista, a fúria da burguesia com a incapacidade de governar de seus líderes eleitos, principalmente um matuto que pouco têm de relacionamento com a burguesia, é um mero capacho, um qualquer que foi buscado em meio à poeira e baba no Congresso Nacional para encaminhar um projeto, ele falhou, como todos com uma capacidade mínima de analisar as capacidades cognitivas de um indivíduo, previram.

Bolsonaro encontra-se em uma corrida contra um tempo; precisa mobilizar as suas próprias forças, se ainda lhe restam alguma, e realizar um autogolpe, estabelecendo-se como o líder incontestável da nação através de um fio direto com a caserna, antes de que seja deposto, com o fator de urgência crescendo exponencialmente, é certo que Bolsonaro teria que fazer com o exército o que qualquer país em que as Forças Armadas não possuem coesão política com o Presidente, principalmente um que tenta centralizar-se em sua figura: a distribuição de cargos estratégicos, isso já começou em 2019, quando os militares colheram mais pastas ministeriais que a Ditadura Militar de 1964-86.

Porém o dito oficialato parece cada dia mais indisposto e desconexo com os objetivos do presidente. Não obstante, isso não parece ser o suficiente, o General Hamilton Mourão,  vice-presidente quando sua existência é relembrada, contradisse o presidente em relação à política de quarentena, não só uma, mas duas vezes! Ganhando apoio do exército, ainda por cima.

O fracasso retumbante do Aliança para o Brasil na coleta de assinaturas provou que o grosso dos eleitores do Bolsonaro não são tão convictos na política e sim em suas urgências diárias, como a maioria da massa proletária global sob propaganda direta da burguesia e do capitalismo, ou seja, uma condição previsível. A Aliança para o Brasil antes mesmo da pandemia já (não) surpreendia todos anunciando que não estaria presente nas eleições municipais deste ano. O partido recém-criado de um presidente que foi eleito em primeiro mandato fracassar de maneira tão irrisória em conseguir simples assinaturas no auge de sua massa fiel de seguidores e quando as pesquisas de opinião estavam indo razoavelmente bem para este é uma discrepância, uma demonstração fina de incapacidade política, a própria São Paulo, tão entusiasmada pelo seu capitão em 2018, fez-se ouvirem as panelas nos grandes apartamentos luxuosos do Higienópolis.   

A mídia, exceto a Record, que objetivos políticos a impedem de se aliar a outrem, já se declara inimiga eterna número 1 de Bolsonaro, Veja, Globo, Folha, todos no limite de sua liberdade de expressão, de maneiras diferentes, largam Bolsonaro com a mesma facilidade que o adotaram. Cada um foi um papel trivial na manipulação da opinião pública para que o mesmo fosse eleito, embora a Folha e a Veja finjam serem oponentes do governo, eram seus porta vozes até fevereiro deste ano.

    Os ratos abandonam o navio, os ministros e governadores que antes apoiavam o presidente, incluindo o próprio Bolsodória, que usou-o como escada eleitoral, foi o primeiro a voltar atrás em seu apoio, já em 2019. Os senadores e congressistas rapidamente o seguem, a já arrependida Janaína Paschoal e outros da disputa interna do PSL-SP. Enquanto seu gabinete de ministros, bem, a maioria, incluindo Guedes e Moro, já se declaram pelo Ministro Mandetta, que possivelmente tem mais capital político para conduzir um golpe de estado que o presidente, nesse momento.  

Pois bem? Seria novo esse conflito entre unidades federativas e governo federal na história do país? Obviamente que não, na verdade até o golpe de  64 este era o estado constante da política interna do país. João Dória planeja ser presidente desde que se candidatou a prefeito da cidade de São Paulo em 2016, além dessa ser a progressão de carreira dos tucanos que governam a cidade. Agora como governador do estado faz por onde para contestar o Presidente Bolsonaro e pôr-se como alternativa sã e sóbria ao tresloucado que habita o Jaburu. Não se enganem, a campanha para presidência de Dória teve início em 2016, atinge agora um importante ponto crucial. Em 2018 o PSDB se fragmentou, come pela beirada para retomar as posições que perdera e voltar às graças do projeto neoliberal brasileiro, e talvez até mesmo reconquistando a cadeira presidencial que perdera em 2002 para Lula. O partido varre pra fora os antigos corujas; Aécio Neves tornou-se um deputado, Anastasia saiu, Geraldo Alckmin passa os dias nos bastidores da Band, José Serra pode muito bem ter morrido semana passada, apenas o barão Fernando Henrique, príncipe dos Sociólogos, observa e deixa acontecer enquanto Dória reconfigura o partido sem oposição nenhuma,  move-o mais à direita liberal por entender que o antigo formato político de permanecer-se o representante da Centro-Direita acabou, já não compete mais a moderação àqueles que desejam a presidência.

Tudo irá depender do capricho da Burguesia, Mourão pode muito bem representar um General Dutra, já possui o título da função oficial de testa de ferro de interesses que contradizem a democracia liberal, segurar a cadeira presidencial pelos próximos 2-3 anos, enquanto esforça-se o máximo para passar medidas liberalizantes, não podia ser diferente, e impedir a qualquer custo que o PT e similares tenham chance em qualquer processo democrático. A questão evidentemente também se recai sobre a outra peça desse tabuleiro; teria o presidente Bolsonaro força para remar contra a maré de uma burguesia que já se cansou de seu show de horrores? Para quem pende mais o exército? Para um capitão que fora atirado para a reserva ou para a maestra mor das Forças Armadas na política? Quais sessões da burguesia apoiam Dória? Quais apoiam Bolsonaro? Embora esteja claro à luz do dia que há um conflito ocorrendo nesse exato momento, não existem nomes, como sempre, descobrimos anos depois nos livros de História.

As cartas são as mesmas de sempre, o jogo é o mesmo desde que D. João VI pisou com sua corte no Rio de Janeiro e esta decidiu que aqui era seu verdadeiro ambiente para despertar seu potencial, inventando o Brasil anos depois por necessidade.

A esquerda fica como está desde 2012, perdida, não sabe o que fazer, perdeu seus olhos em um grave acidente de falta de consciência política, foca-se apenas nas necessárias medidas para o baque social e econômico do coronavírus e não no que se espreita—quer dizer—sabe o que se espreita, não há nenhuma descrição nas ações do Bolsonaro e pedidos do fechamento do congresso, mas permanece imobilizada, apática, incapaz de mover um músculo sequer, exceto cartas, que não movimentam a política imediata de uma nação desde 1215. Seria pessimista, mas acertado, dizer que do lado vermelho do espectro político já é tarde demais. Essa apatia será a destruição da Social-democracia onda rosista no Brasil, torcemos para que do caos algo novo, menos mesquinho e mais proletarizado, se erga.

Vitor Teiú, Março de 2020.